Cereja, vermelha, no bolo tricolor
04 de dezembro é Dia de Iansã (que no sincretismo religioso, também é representada por Santa Bárbara), uma entidade lutadora, guerreira, determinada e conquistadora. Características que os jogadores do Bahia parecem ter incorporado para a derradeira partida do Brasileirão, pois, mesmo apresentando um futebol tecnicamente abaixo da crítica, o tricolor venceu o Ceará, rebaixou o adversário, e conquistou a vaga na Copa Sul-Americana, dando a sensação de “algo mais” na campanha contra o rebaixamento.
O jogo começou cercado da já cansativa polêmica sobre “entrega”, mas eu tinha convicção de que isso não aconteceria, até porque, pra começo de conversa, o Bahia tinha objetivos a alcançar. Na verdade, só fiquei na dúvida se o time queria entregar ou não quando vi a escalação de Camacho, Marcone e Gabriel no meio campo. Brincadeiras à parte, o que se viu no lotado estádio de Pituaçu (que deu ao Bahia a segunda melhor média de público da competição, atrás apenas do campeão, o popular Corinthians), foi o Ceará, com três atacantes, partindo pra cima do Bahia, enquanto este, seguia o seu script de “sentir” (lá ele) o adversário, só marcando no início.
Felipe Azevedo e Osvaldo variavam seu posicionamento, mudando de lado, enquanto Marcelo Nicácio era o homem da referência. O Bahia, que de tão lento no início, parecia sem ritmo de jogo, deu alguns vacilos e em um deles (Fabinho, a lá Paulo Miranda) o rosto de Lomba salvou o gol de Osvaldo. O domínio alvinegro era claro e algo me dizia que o gol cearense sairia logo.
Aí veio o gol de Camacho…(veja só, ele mesmo) em um belo chute de fora da área. A essa altura o Atlético-MG já tinha iniciado seu papelão frente ao Cruzeiro e o Ceará, prejudicado pelos dois resultados, acabou perdendo um pouco do ímpeto. Ainda assim, aproveitava a fragilidade do Bahia e atacava mais. Jogou uma bola na trave, na cabeçada de Rudinei e insinuava empatar o jogo logo logo. Aí, mais uma vez, tomou um golpe. Saída de bola interceptada por Lulinha, passe pra Camacho, que demorou, devolveu errado, mas contou com a sorte de Lulinha que, mesmo chutando fraquinho, pegou o goleiro Diego no contrapé e marcou, com a bola entrando lentamente no gol. Bahia 2×0, com requintes de crueldade, como gosta de dizer o excelente Milton Leite.
A essa altura a partida parecia definida, pois o Atlético-MG, em alta performance, conseguia tomar 4 gols do Cruzeiro na Arena do Jacaré e o Ceará estava rebaixado independente do resultado de Pituaçu. A partir daquele momento, o jogo só valia para o Bahia, que contava com a bondade do Galo pra garantir sua vaga no torneio continental.
Mas com o Bahia sempre tem que ter emoção e, antes de terminar o primeiro tempo, Felipe Azevedo (que acho até parecido Daniel Alves, de rosto), chutou da entrada da área, cruzado e diminuiu, dando ares de “luta pela dignidade” os jogadores cearenses.
No segundo tempo o Bahia tinha tudo para homenagear seu torcedor com um futebol mais solto, agressivo, imponente, mas o que se viu foi justamente o contrário: com o Ceará pressionando, o Bahia sem acertar passes, numa mistura de displicência e afobação, foram os erros de finalização alvinegras, a segurança de Lomba e, vá lá, a luta dos jogadores tricolores, que garantiram o resultado para o Bahia, em 45 minutos ainda piores que os primeiros. No fim, a torcida ficou feliz com a conquista da vaga, mas o futebol apresentado deixou uma mensagem de alerta sobre a necessidade de ajustes na equipe.
Algumas observações:
Lomba foi Lomba mais uma vez. Foi eleito o melhor goleiro do Brasileirão, no troféu Armando Nogueira (e tenho esperanças de que ele conquiste também a Bola de Prata Placar). É o melhor da posição desde Émerson (Fernando e Omar foram testados na série B, complicado comparar).
Marcos sentiu uma pancada no segundo tempo e sumiu do jogo. Mas antes, quando apareceu, não foi bem.
Paulo Miranda se despediu sem comprometer. Um belo zagueiro, que se tomar consciência do que não sabe fazer, vai muito longe. Danny Morais entrou bem. Foi muito exigido e não comprometeu.
Titi foi bem também. No segundo tempo cresceu muito, evitando um final melancólico para o tricolor.
Ávine, sem ritmo, se dedicou como sempre, mas não fez uma boa partida. Torço muito para que ele permaneça no Bahia. Para mim, uma bela demonstração de grandeza para uma equipe é manter seus ídolos. A Udinese, time médio da Itália, mantém Di Natale, que é figura certa na seleção italiana, há anos. Porque o Bahia não pode manter Ávine?
Fabinho deu uma entregada no início para Osvaldo, mas depois cresceu com o sistema defensivo da equipe e ajudou a segurar o resultado.
Marcone correu muito atrás de Osvaldo e isso deve ser usado como atenuante na avaliação de sua atuação de passes errados e alguns vacilos de posicionamento.
Camacho, verdade seja dita, foi o melhor do Bahia do meio para frente. Continuo achando que ele é menino de playground, mas fez um gol e deu passe pra outro, mais que Carlos Alberto fez em seus 19 jogos pelo Bahia. Ainda assim, penso que Camacho não mostrou bola pra vestir a camisa do Bahia.
Gabriel até que deu uns passes e dribles interessantes, deu velocidade em determinados momentos ao jogo e teve mais personalidade. Mas ainda não empolgou não. É talentoso, deve ser trabalhado, principalmente na força física.
Lulinha brigou como sempre e deixou o seu. Só não me passa confiança ainda pra ser titular da equipe, mas manteria ele no elenco, sem dúvidas.
Souza não foi bem, apesar do início de jogo promissor. No segundo tempo ele sumiu de vez e foi mais importante ajudando a defesa. Mesmo assim, termina o ano com saldo positivo.
Junior entrou sem muita eficiência. O mesmo vale pra Nikão.
Joel mostrou mais uma vez ter estrela para, mesmo aos trancos e barrancos, conquistar seus objetivos. Eu prefiro assim, alguém vencedor por excelência, mesmo que algumas ideias táticas não sejam lá as mais admiradas pela torcida. Se ele ficar pra 2012 eu criou boas expectativas para a temporada.
Enfim, assim como em 2010, o Bahia encerra mais um ano deixando seu torcedor satisfeito, por ter alcançado seus objetivos (pelo menos no Brasileiro). Agora, é hora de elaborar melhor esses objetivos, para voltar a mostrar para todos o verdadeiro tamanho que o clube tem. Fugir do rebaixamento é pouco, muito pouco, mas foi o estabelecido e alcançado. Já a conquista da vaga na Sul-Americana é uma cereja pro bolo. Vermelhinha, da cor da Iansã.
Obs:
O Bahia finalmente venceu algum time que começa com a letra C.
Em Pituaçu nem gol tinha feito contra Coritiba, Corinthians e Cruzeiro. Fora, só tinha marcado contra o Cruzeiro. Sai zica!
O Bahia finalmente venceu com Pituaçu recebendo lotação máxima (32.157). O jogo contra o São Paulo tinha 31 mil pessoas.
Para quem acompanha essa análise “Cu de Foca” no BBMP, vai um abraço forte, pois essa é a última deste ano. Agradeço o apoio, as críticas, a participação de todos. Espero ter tempo e também ainda mais cuidado com as palavras para melhorar para 2012 e poder continuar com vocês. Feliz Ano Novo galera.
Abraço.












