Seu Jurandir no Planeta dos Malucos

Seu Jurandir chegou em Salvador num vôo da GOL, às 19:20 do dia 7 de outubro. Saiu do avião e partiu para buscar sua mala no saguão de desembarque. Como a bagagem demorava de aparecer na esteira, Seu Jurandir sacou a Maxi-Goiabinha que a aeromoça tinha lhe oferecido e ele havia guardado no bolso para mais tarde. A mala chegou, ele colocou no carrinho e saiu pelo portão para procurar um táxi.

- “Quanto é o táxi até…

Ele olhou um papel na sua mão e completou:

… Ondina?”

- “Ondina? 88 conto” – disse o motorista.

Seu Jurandir fez cara feia, mas entrou no carro mesmo assim. Afinal, Seu Jurandir é paulista e veio conhecer Salvador pela primeira vez no alto dos seus 53 anos. O táxi partiu e logo depois que passou pelo túnel de bambuzais, o motorista fez um pedido:

- “O senhor se incomoda se eu ligar o rádio?”

Seu Jurandir observou o motorista. Era um homem que aparentava uns 40 anos. Tinha uma aparência serena, óculos escorregando pelo nariz e uma boina azul, vermelha e branca na cabeça. Seu Jurandir disse que não se incomodava, mas ficou surpreso quando o rádio ligou. Não era bossa nova ou MPB, nem pagode, arrocha ou axé. O que estava ecoando dos alto falantes do táxi era um jogo de futebol.

- “É que eu torço pro Bahia, sabe? E esse jogo é decisivo” – explicou-se o motorista.

Seu Jurandir não era muito de papo, nem de futebol. Assistia de vez em quando um jogo do São Paulo na TV, time que ele carregava uma certa simpatia. Por isso, ficou calado, ouvindo o locutor do jogo junto com o motorista. O locutor gritava:

- “6 MINUTOS DE ACRÉSCIMO!!!”

A cada berro do locutor, Seu Jurandir percebia que o motorista ficava mais nervoso. A aparência serena inicial dava lugar a um semblante de desespero. O homem suava e fazia o sinal da cruz enquanto o carro passava pela Avenida Paralela.

- “Não é possível. A gente precisa de um golzinho só!!!” – desesperava-se o motorista.

- “TERMINA O JOGO NO ACRE!” – berrava o locutor.

- “Pelamordedeus, a gente só depende da gente!!!” – desesperava-se ainda mais o motorista.

Seu Jurandir começou a ficar assustado. O motorista estava suando que nem cuscuz, embora o ar-condicionado do carro estivesse ligado no máximo.

- VAI QUE DÁ BAHIA!!!! – berrava o locutor.

- Vai que dá Bahia!!!! – repetia o motorista.

Seu Jurandir já se segurava na porta do carro, quando o locutor recitou:

- “É A ÚLTIMA CHANCE! LÁ VEM CARLOS ALBERTO, CRUZOU NA ÁREA, CHARLES DE CARRINHO…………………………………………………….
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!”

O motorista começou a tremer, chorar e gritar ao mesmo tempo:

- “É goool, é goool, é gooool, bora Bahêa minha porra, bora Bahêa, minha nirgraça!!! Aí bando de rubro-negro feladaputa! Toma aí!!! É a estrela! Eu disse, eu disse!!! É goool porra!! É gol do Bahia caralho!!”

As mãos do homem tremiam, o táxi já não andava em linha reta. Agora, quem se desesperava era Seu Jurandir, que pedia assustado para o táxi parar.

“Pára, pára!” – gritava Seu Jurandir.

“Bahêa, Bahêa! – gritava o motorista.

Meio que em estado de choque, o motorista finalmente encostou o carro no Posto 2 da Paralela. Bastou o táxi parar, para ele deixar seu Jurandir sozinho no carro e sair pela porta correndo e gritando uns 15 Putasquepariu.

Sozinho no carro, Seu Jurandir observava o cenário ao seu redor. Carros buzinando, fogos explodindo no céu, gente gritando, chorando, ajoelhando. Cada vez mais carros chegavam ao posto em festa, comemorando o que parecia ser um título inédito.

Em meio ao buzinaço, o motorista voltou pro táxi.

“Desculpa, senhor. É que é muita emoção. Esse time é foda.”

Agora curioso, Seu Jurandir perguntou:

- O Bahia foi campeão?

- Campeão? Não, se classificou pro octogonal” – respondeu o motorista ofegante.

- Octogonal?

- É, o octogonal da Série C.

- Da Série C? Terceira divisão?

- É ganhamos do Fast, do Fast do Amazonas. 1×0, caralho!

- “Sei, sei” – disse um incrédulo seu Jurandir.

Ainda em êxtase, o motorista perguntou:

“Pra onde é que o senhor está indo mesmo?”

E o seu Jurandir respondeu:

- “Pro aeroporto. Volta pro aeroporto que eu não fico mais um segundo nessa terra de maluco.”

Que time é esse!

Estádio lotado, lua cheia, temperatura agradável. Era uma noite perfeita para a prática do futebol, desde que tivesse quem o jogasse. O poderoso, tradicional e galático time do Barras, veio armadinho pra não tomar uma goleada, afinal, jogava contra o Bahia, bicampeão brasileiro, dono da melhor campanha do campeonato e que jogava diante da sua torcida. O que o Barras não contava era que o Bahia não jogava diante da sua torcida. Aliás, o Bahia não joga nem diante da sua torcida e nem distante dela. Esse time do Bahia não joga nada!
Os jogadores entraram com uma faixa homenageando Cleber, que sofreu um AVC e está em coma. Pensei que isso acabaria enchendo o time de brios e que eles fariam de tudo pra vencer pelo amigo. E começaram com tudo, fizeram um gol logo no início e dava pinta que ia ser goleada. Mas o ímpeto do Bahia durou só uns 15 minutos, depois o time voltou ao seu estado normal de pasmaceira e ruindade.
Carlos Alberto com pouco mais de 10 minutos já estava na beira do campo pedindo água, certamente pra curar a ressaca. Acho que a diretoria deveria tomar uma atitude e fazer um convênio com o carrinho da maca pra ajudar Carlos Alberto a voltar para a defesa quando ele sobe para apoiar, já que toda vez que ele vai não volta. A zaga batia cabeça, batia nos jogadores do Barra e aumentava os batimentos da torcida. O lateral esquerdo, o tal do Adilson, é o jogador mais regular do time: apóia e defende com a mesma ruindade.
No meio campo, a chamada zona de inteligência e de criatividade do time, parece que deu um branco, um branco não! Um Preto! E no ataque, era melhor comprar um sofá e dar a Neto Potiguar, que passou o jogo inteiro caindo e deitado na grama. Quanto a Moré, o que dizer? Moré no ataque é ataque cardíaco na certa para a torcida
O primeiro tempo terminou empatado e esperava que Arturzinho fizesse algo no intervalo. Mas o que esperar do nosso diminuto treinador? Ele deve ter falado para seus comandados (?) algo como: “Faz um gol aí, porra! De qualquer jeito! Se a gente não ganhar essa merda e a torcida resolver pegar a gente estamos fodidos!”. O time obedeceu prontamente e adotou a moderna tática de qualquer time de baba: foi para o abafa!
Atacou, atacou e nada. Mal conseguiu chutar uma bolinhas vagabundas. Um torcedor atrás de mim gritou: “Desse jeito, era melhor botar Cleber pra jogar!”. Uma sofredora do meu lado desabafou: “Não agüento mais sofrer!” e derrubou metade da sua cerveja quente em cima de mim. Quando pensei que nada podia piorar, Amauri entrou em campo e tive a certeza que o torcedor que pediu Cleber no time tinha razão.A sorte do Bahia é que a série C é tão horrorosa que parece que ninguém ganha de ninguém e mesmo com uma derrota e um empate, continuamos em terceiro. Mas será que um time que não consegue ganhar do Barras em casa, ainda consegue ganhar de alguém?

Bahia 2 x Barras 2 – O dia em que deu tilte no Chicória News

Como já falei, sou irmão de Chicória. Como já falei também, em dias de jogo do Bahia, Chicória vira o meu informante, mandando torpedos pelo celular com os melhores lances do jogo. É o Chicória News, uma ponte aérea de informações de Salvador para São Paulo. Quem pensa que Frank Aguiar é o verdadeiro cãozinho dos teclados, precisa conhecer Chicória e seu celular maluco.

Bom, ontem foi assim.

Chego da firma, tiro a roupa (delirem, garotas), fico de cuecão e me preparo para tomar um banho antes do jogo começar. Mas logo sou interrompido.

Brrrrrrrrrr. O celular vibra. É o Chicória News começando a transmissão. Bahia faz 1 x 0 com Neto Potiguar. Eu vibro também. E me pergunto: Neto Potiguar é aquele mesmo que falavam que era cracaço de bola?

Bom, como um filme em rewind, dou passos para trás, saio do banheiro e esqueço o banho. Cuecão na cama e jogo do São Paulo na TV. Hoje vai ser golea

Brrrrrrrrr. O Chicória News interrompe meu pensamento e me traz de volta à realidade: Barras empata. Porra, mas tudo bem. Hoje vai ser goleada a 1.

Brrrrrrrrrr. O celular parece querer falar “É isso mesmo, Zé. Você é o cara”. Bahia desempata. 2 x 1. Elias. Êta porra. Hoje é 18 x 1.

Troco de canal para ver o Vasco. Joguinho interessante. Romário manda Romário fazer o que Romário quer, Romário reclama com Romário, Romário pensa em colocar Romário. É o mundo de John Malkovich. Peraí, Romário, o celular ta vibrando.

Brrrrrrrrrr. O Chicória News tá trabalhando hoje, hein?! Barras empata de novo. Caralho. 2 do Vila. Mais 4 do ABC. Mais 2 do Barras. 8 gols em 3 jogos. Defesa segura essa nossa.

Tudo isso e estamos só no primeiro tempo. Fico preocupado com o jogo. Mas fico ainda mais preocupado com o Chicória News. Desse jeito, nosso repórter acaba com lesão por esforço repetitivo.

O nervosismo bate. Fico ansioso. Boca seca. Mão suando. Cabeça coçando. Dedos inquietos. Pé mexendo. Pescoço gingando. Joelho dobrando. Cintura quebrando. Penso: é ansiedade ou viadagem, caralho??

Continuando. Assisto à TV. Olho para o celular. Coço a barriga. Assisto ao celular. Coço a TV. Olho para a barriga. Assisto `a barriga. Olho para a TV. Coço o celular. Nada acontece. Tudo bem, ainda não deve ter começado o segundo tempo.

E lá no mundo de Malkovich, Romário manda Romário aquecer. Romário manda Romário entrar. Romário manda Romário ir lá e resolver o jogo. Romário manda Romário jogar sério. Romário fica puto com Romário. E Chicória?? Nada. Será que teve um piripaque? Foi mijar e o celular caiu no vaso? Foi extrair sisal e perdeu a mão? Toc, toc, toc. Bate na madeira. O Chicória News nunca falha.

O jogo dos Romários acaba. Romário dá nota 8 para Romário. Olho para o relógio e penso que o jogo na Fonte também já deve ter acabado. Porra, agora é sério. Tô preocupado mesmo. Mais com Chicória que com o Bahia. Deu tilte em Chicória. Agora vira Zé News e mando uma mensagem: Chicória, tudo beleza aí?

Brrrrrrrrr. Beleza uma porra. O Bahia empatou. 2×2.

Estranhamente, respiro aliviado. Chicória tá beleza. O Bahia tá descendo a ladeira. Mas esse filme eu já vi. É o fim de mais uma brilhante transmissão do Chicória News. Mas acho que vou combinar uma diversificação no contrato. Será que rola um boxe no Balbininho? Tô cansando dessas noites com o Bahia.

P.S.: Pra quem solicita a liberação de Chicória, eu explico: o Chicória News ainda é o melhor jeito de saber as notícias do Bahia. A internet pode ser mais prática, mas, cá para nós, não tem o mesmo glamour.

É o Bahia, seu Raul

Cabelo lambido. Terno engomado. Sorrisão armado na cara. E lá estava Raul Gil no centro do palco para apresentar mais um quadro do chapéu.
- E vamos chamar agora para o quadro do chapéu…. Ele: Caito, o Zé do Baheaminhaporra.

A platéia delira. As meninas gritam. As senhoras suspiram. Os rapazes aplaudem. Eu adentro o palco. Um pouco tímido, confesso.
- Oi, seu Raul. Boa tarde, platéia. Faz tempo que queria participar desse quadro.

Em minha frente, cinco chapéus pendurados. Fico olhando e imaginando o que está reservado para mim. Até que Raul Gil me traz de volta:
- Bom, vamos começar logo. Hoje estréia a nova novela nada original daqui. O tempo tá curto, meu filho. Vamos para o primeiro chapéu.

Raul tira o primeiro chapéu. Olha o nome. Faz cara de nervoso. Eu olho.
- Para esse, eu tiro o chapéu, seu Raul. Lógico.

Raul Gil grita como se fosse um gol:
- E ele tira o chapéu para………………….

Duas donzelas morrem com tamanho suspense. Raul Gil continua:
- ….. Paulo Rodrigues.

Aplausos.

- Claro que tiro o chapéu para Paulo Rodrigues. Simplesmente o melhor frente de zaga que já vi no Bahia. Categoria demais, seu Raul. Pena que a torcida lembre mais do Cabo Lima. Aliás, esse aí não joga no meu time.

Polêmica no ar. Começa um burburinho.

Mas Raul Gil segue com o próximo chapéu. Lê o nome e me mostra:
- Claro que tiro.

- Ele também tira o chapéu para…..

Dessa vez, são quatro senhoras que batem as botas com o suspense.
- … Luis Henrique.

- Jogava muito. Não sei porque não estourou, mas jogava muito. Eu tiro o chapéu com prazer. Ah, bons tempos.

Choro de saudades. E a platéia chora comigo lembrando de toda essa história gostosa. Um sirene toca: estamos em primeiro no Ibope.

Eitcha, vamos para o terceiro chapéu.
- Para esse eu não tiro de jeito nenhum.

Raul Gil joga o chapéu no chão, chuta. A platéia ri.
- Ele não tira o chapéu para….. Maracujá.

- Não gosto, seu Raul. Acho azedo. E já nasceu velho, enrugado. Não tiro o chapéu, nem a boina, nem o gorro.

A platéia aplaude. Ojeriza total. Boa, Zé.

Raul Gil continua:
- Mais um chapéu…

- Não tiro, não tiro e não tiro.

- Uia. Ele não tira o chapéu para…. a imprensa medrosa, tendenciosa e descarada.

- O descarada foi você que disse, seu Raul.

- Desculpa, me empolguei. Ele não tira o chapéu para a imprensa medrosa e tendenciosa.

A platéia aplaude de pé. Grita. Berra. Os repórteres fazem cara de “tô chateadinho, viu?!!”. Eu falo:
- A imprensa esportiva baiana, claro que não é toda, representa um dos maiores atrasos da nossa terra. Chega a dar raiva. Pode xingar aqui, seu Raul?

- Melhor não. Essa porra é de família.

- Então acho melhor parar esse comentário por aqui.

A platéia grita. Algumas pessoas caem no chão, felizes. Mas o melhor ainda estava por vir.
- Vamos para o quinto e último chapéu. Você tira o chapéu?

- Não tiro.

Raul Gil não acredita. Atira o chapéu no chão. Cai. Rola. Sacode a perna. Simula uma convulsão. Uma loucura.
- Ele não tira o chapéu para….

Mais três mortes com o suspense.

- ………………………………. ele não tira o chapéu para a torcida do Bahia.

Vaias e mais vaias. Ameaças. Gritos de “Vamo invadir!! Vamo invadir!!!”. “Vamos fazer uma passeata com trio na Castro Alves contra esse animal!!!”. “Público zero no baheaminhaporra, pelo menos nos primeiros minutos do dia!!!!”. “Faz uma campanha contra esse otário, Mário Kertsz!!”. O Ibope despenca.

- Calma, galera. Eu não tiro o chapéu para a torcida por um motivo simples: a torcida do Bahia é muito passiva. Parece mulher de malandro. Alienada. Não protesta de verdade. Não se organiza.

Alguém grita:
- Vamos nos organizar é para quebrar você na porrada, disgramado!!!

Tela preta. Tudo escurece. Quando abro os olhos de novo, estou numa cama de hospital com o corpo todo dolorido. Sangue vermelho, hematoma azul e atadura branca.

Carta para Pepeu

Veja só: acabei de ser pai. Eu, o Caito, o Jobseta, pai. Eu, que ouvia em coro que precisava amadurecer, ter um comportamento de adulto. “Agora ele toma jeito”. Minha avó deve ter falado isso aí. “Agora ele tira esse brinquinho”. Meu avô deve ter falado isso lá no céu. Vô, os anjos têm auréolas. E um arquinho dourado na cabeça é mais afrescalhado que um brinquinho na orelha.

Sou pai de Pepeu. Um meninote lindo que com certeza vai me dar muito trabalho. Começando pelo fato dele ser mineiro. “Isso é vantagem, lá tem mulher a rodo!”. Também concordo, mas convencer o carinha a virar Bahia vai ser difícil. E o Atlético? E o Cruzeiro? Ainda bem que o América não tem sexy appeal.

Acho que vou apelar para o sentimentalismo e falar mais ou menos assim:

Pepeu, sabia que quando eu era um pouquinho mais velho que você, já ia para a Fonte Nova com seu avô e seu tio? A gente morava pertinho, na Ladeira do Pepino. De lá, dava para ouvir a galera gritando. E ouvindo a galera gritando era difícil não descer para a Fonte. Depois, a gente se mudou para a Pituba. Seu avô separou de sua avó e voltou a morar no Pepino. Nessa época, a Fonte Nova e o Bahia ganharam um outro papel: era onde a gente encontrava seu avô. Era o nosso programa. Seu avô ficava ali, na pizzaria, tomando uma cervejinha e esperando a galera. Quando a gente chegava, era a última cervejinha e vamos para o estádio. “Umbora, baêa”. “Ê, disgrama”. ‘Ê, laiá”. “É hoje”.

Era emoção até falar chega. Vou contar só um jogo para você sentir o drama. Bahia x Bragantino. Quartas de finais do Campeonato Brasileiro de 90. Olha o Bahia lá. Meu pai falava: “Vamos passar pelas quartas, passar pela semi e vamos ver a primeira final de brasileiro da história da Fonte Nova”. Só para lembrar: em 88, o último jogo foi no Beira-Rio.

Bom, era o jogo da volta. Foi empate em Bragança. A bola rolou e o Bahia demorou para engrenar. Porra, Maílson se machucou. Porra, o Bahia tá devagar, hein?! Vai, Chico, vai. Porra, o Bragantino fez 1 x 0. Meu pai, falando alto porque não tirava o fone do walkman, tranqüilizava a galera: “tem nada não, o Bahia vai virar”. Ô boca. Dito e feito. Começou o segundo tempo e a galera foi ao delírio. O Bahia voltou metendo e logo virou com Luiz Henrique e Charles. Mas aí deu mole e o Bragantino empatou. A gente já estaria classificado com o 2 x 2, mas faltava alguma coisa. Até que o pequeno Naldo sofreu uma falta pela esquerda do ataque. Wagner Basílio pegou a bola. Ajeitou. E chutou. Gol!! Gol do Bahia!!! 3 x 2. Foi comemorar até o fim do jogo. Baêêêêa. Baêêêêaaaa.

O Bahia não foi campeão naquele ano. Mas naquele dia, eu gostei pacas de ser Bahia. Gostei tanto que vou te falar uma coisa do fundo do coração: se gritar Gaaalo ou Zêêêro, pode ir para o seu quarto, moleque. 83 dias sem vídeo-game.

É mole, mas sobe!

Pra começo de conversa, não sou torcedor do Bahia. Não em tempo integral.
Meu time de verdade é o glorioso bicampeão baiano (1967 e 1969), o Fluminense de Feira. Mas como o Touro do Sertão é daqueles times com prazo de validade, dura só o campeonato baiano e depois se dissolve feito Sonrisal, tive que escolher outro time para o resto do ano e, por uma questão de simpatia com a torcida, acabei virando Bahia.
Por já ser escolado em torcer pra um time que não ganha nada desde antes do homem ir a Lua e que só entra nos campeonatos pra cumprir tabela, tiro de letra esse negócio de Série C, de jogar com time esquisito e de não ganhar campeonato. É uma beleza! Você vira um mero observador do futebol, não se estressa, nunca encontra notícias do seu time, não sofre, não conhece os jogadores, enfim, você é uma espécie de testemunha e não de torcedor.
Quando o Fluminense é eliminado (sempre injustamente!) do Baianão, eu passo imediatamente a torcer pelo Bahia, mas, de uns anos pra cá, o Bahia está cada vez mais parecido com o Fluminense e com similares de outros estados como o América do Rio, o Bangu, o Juventus de São Paulo, o América Mineiro e outros times tradicionais que não incomodam mais ninguém e não ganham nada. Do jeito que vai, daqui a pouco a imensa torcida tricolor vai se acostumar a comemorar título de turno, vice-campeonato ou classificação para a Copa do Brasil, igual o Vitória até os anos 80.
O que o Bahia de hoje precisa é se inspirar mais no Bahia de Bobô, Charles, Beijoca, Baiaco, Osni, Léo Oliveira, Gilson Gênio, Zé Carlos e vários outros craques, e menos no Bahia de Advaldo, Mantena, Jorge Silva (aquele português come-dorme que nunca estreou), Wilson Mano, Adelino, Jura, Viola, Jajá, Dedé, Macula, Josecler, Badé e tantas outras criaturas bizarras que apareceram por aqui.
Quando começou a Série C todo mundo dizia que esse ano ia ser moleza, mas nem tudo que é mole sobe, pelo menos não sem um viagrazinho. Por isso, Bora Baêêêêêêa! Vamos torcer para que Nonato e Carlos Alberto curem sua ressaca, que Preto relembre do tempo em que ainda jogava futebol e que o resto do time aprenda a jogar nem que seja um pouquinho. Quem sabe assim essa porra desse time sobe!
Não quero ter que agüentar outro Fluminense de Feira na minha vida…

Jorge Vercilo, Karina Bacchi e o Bahia (é antigo, mas tá valendo)

Também sou da turma tricolor. Também sou a voz do campeão. Mas uma coisa eu admito: torcer para um time da terceira divisão é foda. Porra, e torcer de longe para um time da terceira divisão é mais foda ainda. Eu moro aqui em São Paulo e não chega nada sobre o bahia por essas bandas. Pô, o melhor time do mundo. O tricolor de aço. O rolo compressor. O time que já teve o Cabo Lima na frente da zaga, Dico Maradona no meio e Emo na ponta esquerda. O Bahia de João Paulo Badaró, de Fábio Jobseta, de Bolinha, de Chicória, de meu pai. É incrível. Mesmo com toda essa magia na terceirona, ninguém se interessa.

Alguém aí sabe quanto foi Linhares e Nacional de Patos? Um jogo de suma importância para o grupo do bahia, que ia decidir que time ia passar para a próxima fase com o tricolor. Ninguém sabe. Eu procuro nos programas de esporte da TV aberta e nada. Troco para a TV fechada e… porra nenhuma. É mais fácil descobrir o que Jorge Vercilo pensa sobre o campeonato alemão do que encontrar uma notícia da terceira divisão. Não é brincadeira não. Eu vi o Vercilo falando sobre isso outro dia. Até cantou que a saudade bateu foi que nem maré entre os gols da rodada.

E sabe o que é pior? Eu ainda viajo muito nos finais de semana. Perco o fantástico e os programas de esporte da noite de domingo. Fico lá, na sala de embarque, olhando o painel de notícias do aeroporto. Não dá uma notícia do bahia. Em compensação, sei que Wanessa Camargo foi para a festa com um vestidinho amarelo. Que Erika Palomino vomitou quando viu um ator da globo de pochete. Que Karina Bacchi diz que é de carne e osso e que também vai ao banheiro. Olha só que coisa: eu fico sabendo que Karina Baccchi também bate um cago, mas não sei quanto foi o jogo do bahia.

É triste torcer para um time da terceira divisão. Pensando bem, tem lá suas vantagens. Ontem descobri que o bahia empatou em 2×2 com o fast do amazonas. É melhor não ficar sabendo essas porras e ficar com as notícias do painel do aeroporto. Pelo menos, não vou mais usar pochete e, quando bater um cagotinho, vou ter certeza que Karina Bacchi também faz a mesma forcinha gostosa.

Rumbora Bahêêa, minha pooooorraaa!!!

Sejam bem-vindos ao Bora Bahêa, Minha Porra. Um blog que contará a história de um clube glorioso no seu passado, repleto de vitórias, maior campeão do norte-nordeste, bi-campeão brasileiro, mas que pela falta de competência, seriedade e comprometimento de alguns, acabou no fundo de um abismo. Esperamos narrar aqui o renascimento e a escalada do Bahia rumo à série A.

Domingo iniciaremos uma nova fase. Começaremos o octogonal final da Série C contra um time cujo nome já é uma droga. O CRAC, de Goiás. Esperamos que o time seja ainda pior.
Muitos tricolores não acreditavam que fosse possível a classificação para essa fase. Mas o Bahia é o Bahia e tamos aí, nas cabeças.
Não acredito que Senhor do Bonfim seja muito chegado num babinha, mas não custa nada pedir a ele que ajude a Nonato Cachaça a meter uns dois golzinhos na rede do adversário. E que ilumine o cabeção de Arthurzinho, o filhote de cruz-credo. E que Amauri não entre no jogo, por favor.

Não esperem encontrar textos enaltecendo cegamente o time, pois esse não será o propósito do blog. Tanto o clube, quanto seus jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores, serão devidamente esculhambados e escrachados, quando necessário (às vezes gratuitamente, também). Pois só a crítica é capaz de gerar reações. E o que mais o nosso Bahia precisa é disso, não é?
Não seremos um blog ranzinza, sisudo. Estamos aqui pra nos divertir, pois como disse o filósofo Dunga quando dedicou a Copa América às criancinhas, futebol é isso: diversão. E nós somos Bahia, com muito orgulho, amor e humor.

Bora Bahia, minha nisgraaaaaaçaa!!!!!