Falta!

207 quilômetros de caminhada, 6 cambistas, 2 guardadores de carro, 157 filas, 873 empurrões, 2 tropeções, 1 queda, 1 cotovelo ralado, 23 roletes de cana, 7 acarajés, 12 churrasquinhos de gato, 123 cervejas, 22 mijadas, 5678 amendoins, 30 refrigerantes, 23457 pipocas, 8 Capelinhas (falsos), 45 mães de juízes xingadas, 1758 palavrões, 1 time e 1 relógio roubados, 807 gritos, 8 gols anulados, 53 bolas na trave, 78 gols comemorados, 36 desconhecidos abraçados, 42 banhos de cerveja, 18 beijos na boca, 28 amigos, 18 discussões, 1 briga, 38 graus Celsius, 2 bonés, 1 óculos escuro, 21 noites, 13 chuvas, 1 camisa (com 2 estrelas), 3 bermudas, 1 cueca azul da sorte, 970 reais, 602 sorrisos, 182 risadas, 33 gargalhadas, 1 choro e, principalmente, uma saudade que é impossível de quantificar. É, 1 ano sem Fonte Nova realmente faz falta.

P.s: saiu um texto meu no jornal A Tarde de hoje. Quer ler? Clique aqui.

Tragédia da Fonte – 1 ano.


Há exatamente um ano atrás a nação tricolor subia para a série B. Infelizmente, não pudemos comemorar o fato de forma plena, porque a boa notícia veio acompanhada de uma outra terrível. O desabamento de parte da arquibancada da Fonte Nova e a morte de 7 torcedores.
Esse acontecimento serviu mais uma vez pra mostrar todo o descaso e incompetência da diretoria do Esporte Clube Bahia.

Se de fato a Fonte Nova é a casa do Bahia, não seria lógico e prudente cuidar bem da sua casa? esse dever é apenas do governo? acho que não. Os dirigentes do Bahia sempre disseram que não precisavam construir um estádio porque já tinham um. Parece que não fizeram o seu dever de casa.

Os dirigentes do Bahia não sabem cuidar do que é nosso. Não cuidaram bem da velha Fonte, assim como não estão cuidando bem da sede de praia, não cuidam bem do Fazendão e muito menos do nosso time e da sua torcida.

Porque será que eles não vão cuidar da sua vida e deixam de vez o nosso Bahia? deve ser porque a única coisa que eles sabem cuidar direitinho é do próprio bolso…

Nasceu

Tudo começou com o namoro do Descaso com a Incompetência. Dessa união resultou uma gestação mal planejada, mas, por causa da irresponsabilidade do casal, isso nem foi uma grande surpresa e hoje, após 9 meses, o rebento nasceu! Seu nome de batismo é Impunidade, seus padrinhos são a Omissão e o Lucro Fácil.

Ela foi gerada numa noite de domingo, diante de 60 mil pessoas que viram atordoadas uma cena deprimente. Dessas que deixam qualquer um sem chão, dessa vez literalmente. Caia um pedaço de arquibancada e, junto com ela, a máscara de pessoas incompetentes e omissas, pelo menos ao lidar com a vida alheia.

Mas a Impunidade logo ficou órfã. Ninguém quer assumir esse “acidente de percurso”. Por isso, de vez em quando temos que lembrar dela. Para que a mesma não caia no esquecimento e tenha irmãs num futuro próximo.

Pra você que me esqueceu… Aquele abraço…

Ontem foi a despedida de um amigo meu, eu não poderia faltar. O sacana foi o último a chegar, só apareceu umas 11 da noite. Quando ele chegou eu já estava “meio” alto, mas mesmo assim continuamos a beber até de madrugada. Cheguei em casa mal, depois das 2h.

Hoje foi a despedida de uma amiga minha, eu não poderia faltar. Ela foi a primeira a chegar, eu só apareci umas 9h da manhã. Quando eu cheguei já tinha uma galera lá, mas fiquei um bom tempo bebendo daquelas memórias. Cheguei em casa bem. Valeu, Fonte!

Confira agora a cobertura do Bahêa Minha Porra do Grande Abraço na Fonte.

A concentração:

O treino:

O buraco:

O abraço:

A Fonte pede respeito:

A homenagem:

Amanhã, às 9h

Ela está calada. Perdeu a voz. Talvez pelo trauma por tudo que aconteceu recentemente. Logo ela, que sempre gostou de fazer barulho e vivia gritando, cantando e fazendo aquele alarde para todo mundo ouvir.

Ela está triste. Perdeu a alegria. Talvez por estar sendo xingada e humilhada pelo Brasil afora. Logo ela, que sempre foi tão contente e adorava dar risada e fazer aquela festa junto com a galera.

Ela está feia. Perdeu a beleza. Talvez por ter sido esquecida e maltratada pelos seus responsáveis. Logo ela, que mesmo abandonada, dava um jeitinho de se vestir colorida e ficar linda nos dias de festa.

Ela está sozinha. Perdeu a companhia. Talvez por ter sido trancada e desenganada pelas autoridades. Logo ela, que sempre foi a rainha das multidões, com milhares de seguidores fiéis e apaixonados.

É por tudo isso que ela precisa muito do seu abraço. Um abraço caloroso, com carinho. Porque o abraço verdadeiro é milagroso. Ameniza a tristeza, aumenta a auto-estima e dá aquela força necessária nos momentos mais difíceis.

Vá lá, mostre seu amor por ela, dê seu abraço.
Com certeza, ela vai se sentir melhor.
Quem sabe, ela não ganha forças para viver um pouquinho mais.

O dia em que a cidade parou

Um conto sobre o suposto dia da implosão da Fonte

Desde o anúncio feito pelo governador em 2007, que todo mundo estava na expectativa do dia em que iriam derrubar a Fonte Nova. Quando a data finalmente foi marcada a cidade toda voltou os olhos novamente para ela. Pessoas de toda a Bahia foram visitar aquele templo sagrado do futebol, que já havia sediado 5 finais de campeonatos brasileiros. Caravanas do interior e até de outros estados também lotavam a ladeira da Fonte para dar o seu adeus. Torcedores do Bahia eram os que demonstravam mais emoção, afinal, nenhum outro time viveu tantas histórias na velha Fonte.

No dia da implosão foi uma verdadeira comoção. Literalmente a cidade parou naquele domingão. Nunca vi tanta gente do lado de fora do estádio, tinha gente no Dique, no Bonocô e até em cima das marquises do metrô. Nem o churrasquinho de gato faltou. E, vez ou outra, ainda passava um helicóptero, para dar mais riqueza à transmissão ao vivo das redes de TV.

A implosão estava marcada para 16h. Horário e dia típicos de jogo, só não dava para entrar, como se todo mundo tivesse ficado sem ingresso. Faltando 2 minutos para acionarem os explosivos eu já estava emocionalmente abalado, as cervejas e as memórias misturadas me fizeram perder toda a noção da realidade. Foi nessa hora que, girando a camisa do Bahia no ar, eu sai correndo. Num último ato de desespero, consegui romper a barreira da polícia e cheguei até a Fonte para dar meu derradeiro abraço.

Poucos segundos depois de abraçar a minha segunda casa, já haviam uns 20 policiais à minha volta! Sorte minha que, provavelmente por causa da imprensa, eles me trataram com educação e se limitaram a tentar me afastar dali. Mais sorte ainda foi ver que no começo dezenas de pessoas começaram a invadir a área isolada. Falo “no começo”, por que logo depois centenas de pessoas já protegiam a indefesa Fonte daquele assassinato premeditado.

Aos poucos todas aquelas milhares de pessoas que estavam afastadas começaram a tomar a ladeira da Fonte, lembrando dias de grandes jogos do Bahia. Foi então que um cara com uma corneta começou a tocar os primeiros acordes do hino tricolor: pan pan ran, pan ran ran ran ran ran! Só faltava aquilo pra iniciar a festa. Até a Kombi do reggae apareceu. Milhares de torcedores cantavam e comemoravam como se fosse um título do Bahia:

Arrá, urru, a Fonte Nova é nossa!
Arrá, urru, a Fonte Nova é nossa!

Era uma cena de arrepiar. Sei que, no meio de tantos invasores, a polícia já nem ligava mais para mim, nem pra ninguém, então, aproveitei a distração e fui me misturando com a galera ensandecida. O importante mesmo é que naquele dia a implosão foi adiada, depois até ouvi no rádio que o governador já estava falando em recuperação, após finalmente ouvir uma comissão especializada. E, pelo que percebi, ainda “vamos torcer pro Baêa ser campeão, na Fonte Nova, meu caldeirão”.

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Obs: eu sou contra a demolição, até que exista um laudo oficial atestando que a Fonte Nova não tem mais jeito. Porém, se algum especialista no assunto falar que deve ser demolida eu mudarei minha opinião. Só acho que uma decisão como essa não deve ser tomada no calor de um momento. O Santiago Bernabéu é ainda mais antigo que a Fonte Nova e hoje é um dos melhores estádios do mundo e, aqui no Brasil, o Maracanã provavelmente será o palco da final da copa que ainda será em 2014 (na época ele terá 64 anos). Muita polêmica ainda vai rolar nessa fonte, ainda mais que envolve muita história e muito dinheiro. Só espero que aconteça A MELHOR DECISÃO, algo que nossa Fonte já vivenciou muito.

Vale lembrar também que amanhã (sábado, dia 8), às 9h é o dia do Grande Abraço na Fonte!

O último carinho de Yemanjá

Hoje faz sete dias que aconteceu a tragédia da Fonte Nova. O blog ainda tem vivo em sua memória, esse trágico acidente que marcou para sempre a história desportiva do estado. Para prestar uma homenagem aos que faleceram naquele fatídico dia, publico o texto de Rose Bahiana, Bahia até no nome, que mandou o texto do Rio de Janeiro, um dia após a tragédia.

Esse país é grande. Mas ontem, particularmente, me senti morando a uma distância algo assim entre Austrália e o Brasil, ao tentar saber mais notícias sobre a queda de parte do estádio da Fonte Nova. Ninguém dava notícia. Nenhum jornal do Rio, nem as TVs. Eu ligava para Salvador, sabia que tinha meus por lá (com certeza, meus sobrinhos netos de 22 e 18 anos e meu irmão. Quem sabe também minha irmã e minhas sobrinhas). Minha família é toda de Salvador. E todo mundo, Bahia — com exceção de poucos, muito poucos.

Aquela cidade chama-se Esporte Clube Bahia (título, aliás, de uma das minhas primeiras reportagens na Tribuna da Bahia, onde comecei). Fui uma das primeiras a saber, porque acompanhava ao vivo o jogo entre o Bahia e o time do Vila Nova. Sabia que tudo tinha acontecido aos 35 minutos do segundo tempo, porque acompanhava pelo jornal A Tarde on line — o primeiro a dar uma pequena notícia. Era um jogo que levaria o Bahia apenas para a segunda divisão — é, tava na terceirona que nem eu. Mas quem torce pelo Bahia, não importa a divisão, é Bahia de coração — apesar dos dirigentes, todos invariavelmente canalhas e herança da maldita ditadura — e eu esperava mesmo era a festa de depois do jogo.

É que para os de minha geração o Bahia é muito mais do que um time e seu hino, a nossa marseilhesa (a ditadura chegou a tentar impedir que ele fosse tocado no trio elétrico nos carnavais do fim da década de 1960 e início de 1970). Não conseguiu a obediência: lá pelas tantas da noite, algum trio tocava e a gente quando ouvia os acordes iniciais (são inconfundíveis, principalmente para quem precisa de símbolos) dizia: chegou o levanta defunto. E o carnaval voltava a ser carnaval, apesar deles. Hoje, no Rio, não há um amigo meu que não conheça, e não cante comigo, o Hino do Bahia

Muita coisa mudou. A torcida do Bahia hoje lembra, em, certos momentos, uma horda de miseráveis desesperados. A maioria, pobres e pretos. E pobres a gente sabe como são tratados nesse País. A tragédia estava anunciada há tempos. O estádio foi condenado até pela PM. Apesar disso, venderam 60 mil ingressos. Estão querendo, agora, mudar o horário da tragédia, apenas para justificar que teria excesso de gente só depois do fim da partida — outros teriam entrado após o fim do jogo. Incrível: até alguns jornalistas da Bahia davam notícia errada para os canais de TV do Rio — ou não estou bem certa se era para Sídnei, a capital da Austrália, tal a demora de levá-las ao ar, a frieza das noticias e um toque de que isso aconteceu no fim do mundo — quem sabe na África. Sídnei apenas na distância, porque salvo alguma educação, mais informação e certo refinamento, o Rio pouco difere de Salvador. A Bahia é só mais pobre e menos informada: aqui, no Rio, o povo tem mania de ler jornal e as bancas estampam as primeiras páginas, enquanto em Salvador escondem os jornais — só lê quem pode comprar. É comum vermos dezenas de pessoas lendo e compartilhando, em volta da banca, alguma primeira página de jornal e discutindo as notícias entre si.

Notícias diziam também que o estádio, inaugurado na década de 1950, nunca passou por reforma. Outra mentira (pode-se mudar a história, mas não quando alguns protagonistas ainda estão vivos). Eu estava lá com meu irmão na reinauguração no fim da década de 1960, onde teve outros acidente, com dois mortos, porque alguém gritou que o estádio estava caindo. Hoje, de acordo com o relatório elaborado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Arquiteturas e Engenharia (Sinaenco), o estádio baiano é o pior dentre os 29 principais do País. Problemas nos banheiros, de ferrugem e oxidação foram apontados no estudo – divulgado no dia 1º de novembro – feito para avaliar as condições que os atuais estádios brasileiros teriam para sediar os jogos da Copa do Mundo de 2014. Estive lá uma vez e pensei: como aguentam isso? Por muito menos os flamenguistas destroem o Maracanã. Agora preservam, porque está lindo e bem cuidado.

Tudo aquilo acontecia em Salvador. E muita gente não sabia de nada. Outro mundo, outro país, outra cultura, outra gente — pobre e preta. Meu filho, que voltava do jogo do Flamengo, ao ver a primeira noticia no Sport TV, reagiu assim: “só isso? Você tá preocupada com isso?”. Era um buraco na arquibancada. Um buraco que tragou pessoas e matou 6 instantaneamente. Olhei para ele e descobri que também não falava a mesma língua — da elite branca. Ao ligar para Salvador (minha irmã ainda nem sabia de nada) vi que os “meus” de alguma forma estavam intactos. Mas, ao ver o primeiro vídeo, com alguns mortos ainda com plásticos improvisados, descobri que não falava, realmente, a língua de branco que predomina hoje. É que nas noites de Salvador sempre sopra uma brisa — ela vem do mar (o mar está em todos os lugares naquela cidade). O vento parecia fazer um carinho em um dos corpos, de bruços, levantava o plástico, brincalhão, e mostrava a camisa do Bahia. Foi quando descobri, e chorei, que tinha me enganado: nem eu nem os meus estavam intactos. E aquele meu irmão com a camisa do Bahia tinha recebido o último carinho de Yemanjá. Como será que sentiu nos seus últimos momentos?

Agora, o governador “encerra o caso” dizendo que vai implodir o estádio. Diz que a iniciativa privada vai pagar. Quem paga pra ver sou eu. Aqui, para o Pan, disseram o mesmo. Mas quem bancou tudo foi o governo federal — leia-se o Ministério do Esporte. E há indícios de que foi uma “farra” com o dinheiro meu, seu, nosso. Os governantes desse País não nos merecem. As flores que a Bamor colocou no estádio — azuis,vermelhas e brancas — foram de uma rara sensibilidade. Que chamem as torcidas e o povo para fiscalizar essas obras.

Rose Bahiana

Para não deixar a poeira baixar.

Foi preciso que sete pessoas inocentes morressem para os responsáveis(?) perceberem que a Fonte Nova é um cadáver insepulto, um estádio zumbi, que só se mantinha vivo pelo amor da torcida do Bahia e pela irresponsabilidade do governo estadual.
O governador disse que foi “uma fatalidade”, numa declaração desrespeitosa com as vítimas. Não, governador, não foi uma fatalidade. Foi uma irresponsabilidade. É verdade que foram os governos anteriores que deixaram a Fonte Nova chegar ao estado que chegou, mas o senhor, que foi eleito para mudar e fazer tudo diferente dos seus antecessores, repetiu os mesmos erros dos que tanto criticou (assim como está fazendo em outras áreas também). Deu uma demãozinha de tinta pra enganar a torcida, botou Bobô no comando do estádio para fazer demagogia – já que apesar de ter jogado muito, não se tem notícia dos dotes do nosso eterno camisa 8 como administrador de nada – e bola pra frente.
O resultado são 7 mortos e uma tristeza que vai marcar para sempre o estádio onde todos nós tivemos tantas e tantas alegrias. É claro que queremos punição para os culpados, mas para garantir que ela não exista, as desculpas e “medidas enérgicas” já começam a surgir e são sempre iguais as que qualquer governo toma depois de tragédias similares.
Já disseram que vão apurar com rigor, instituíram uma comissão, culparam o governo anterior, os engenheiros, a PM, e, por fim, anunciaram a demolição da Fonte Nova. Se mesmo depois de tudo isso o povo e a imprensa continuarem cobrando providências, vão acabar chegando a conclusão que a culpa é nossa, da torcida do Bahia, que fica lotando a Fonte Nova e que, com nossa vibração, está destruindo o patrimônio público, que é tão bem cuidado por eles.
Torcida tricolor, vamos nos mobilizar. Ainda temos muito trabalho para 2008. Temos que derrubar nossa diretoria, exigir punição aos culpados por essa tragédia e lutar por um novo estádio, que lotaremos a cada partida da campanha que vai levar o Bahia para a primeira divisão. Agora, mais do que nunca e em homenagem aos que morreram na Fonte Nova, é hora de gritar: Bora Baêêêêêa!

Somos todos culpados

Por Ângelo Mello

O que aconteceu na Fonte Nova fez muito mais do que acabar com a minha alegria pela classificação do Bahia para a série B. Fez com que eu questionasse a minha culpa – e de toda torcida – nesse infeliz episódio.

Há anos consideramos a Fonte nosso estádio de direito. Não por acaso, o Vitória construiu um estádio próprio pra tentar reverter a desvantagem absurda que tinha nos confrontos jogados em um campo que de neutro não tinha nada. Se a Fonte é a nossa segunda casa, o nosso templo, porque então aceitamos o tratamento que foi dado a ela nos últimos anos? Como fomos capazes de freqüentar um estádio sujo, mal-conservado, sem condições mínimas de higiene e conforto? E, pior, como permitimos que nossas vidas fossem colocadas em risco pela incompetência e leniência das pessoas que deveriam cuidar do interesse público? Por isso, eu digo sem medo: somos todos culpados, cúmplices da morte de sete torcedores do Bahia. Pais, filhos, irmãos e irmãs, que caíram no abismo do nosso conformismo e alienação.

Somos culpados porque fomos incapazes de nos indignarmos.

Somos culpados porque mijamos na mureta, compramos lanches e cervejas em verdadeiras pocilgas e achamos tudo normal.

Somos culpados porque assistimos passivos os cambistas entrarem e saírem das filas com dezenas de ingressos. E depois aceitamos sermos achacados, pagando até 7 vezes o valor.

Somos culpados porque invadimos o campo sob o pretexto da comemoração apenas pra terminar de destruir um patrimônio que é nosso. Invasão que – só a título de informação – resultou em dezenas de feridos, muitos com fraturas.

Somos iguais, talvez piores do que aqueles que procuramos acusar.

Vejo em fóruns e comunidades do Orkut, a chamada oposição tentando mobilizar os torcedores para a democratização do clube. Meus caros, primeiro é preciso incutir em toda massa tricolor (em mim e em vocês, inclusive) uma noção mínima de cidadania. Se não nos mobilizamos para defender os nossos direitos e as nossas vidas, como poderemos nos mobilizar pela democracia? Não sabemos escolher governantes, então como esperar que saibamos escolher dirigentes?

Eu estou em Palmas, distante 1400 km da tragédia. Mas no domingo meu pai, meu irmão e alguns dos meus melhores amigos estavam presentes em diversos setores da Fonte Nova. Me assusta pensar no que poderia acontecer caso Nonato convertesse aquele pênalti em gol. Estaríamos aqui chorando a morte não de sete, mas de dezenas de pessoas.

Eu vou continuar torcendo pelo Bahia. Mas vou torcer com muito mais fervor pra que esse episódio não caia na vala do esquecimento após a conquista de um punhado de títulos, ou nem isso. E vou torcer pra que a gente aprenda a ser não só a mais fiel e apaixonada torcida do Brasil, mas a mais consciente do seu papel na sociedade e da sua força de mobilização.

Ângelo Mello

Vai, Fonte. Vai ser melhor para você. Vai ser melhor para todos nós…

Estou muito abalado. Desde domingo, não consigo dormir direito. Minha cabeça está em parafuso com tudo o que aconteceu. Já chorei, já me emocionei, já pensei em tanta coisa. E tem uma aflição aqui dentro do peito que incomoda, sufoca e teima em não sair. A revolta é grande. A dor é imensa. Assim como a negligência e a ganância dos verdadeiros responsáveis. Covardes que não têm dignidade para assumir a série de erros que causaram essa tragédia de conseqüências irreversíveis. Fico me imaginando no lugar das vítimas. Estar ali, comemorando, feliz da vida e, de repente, cair do nada. Como naqueles sonhos que a gente se segura na cama porque acha que está despencando. Gente como a gente. De sangue azul, vermelho e branco. Que comemorava depois de tanto tempo de tristezas e agonia. Ali na arquibancada da Fonte Nova. Um lugar de se divertir, de extravasar. O lugar que a gente chamava de casa. Não, eles não mereciam isso. Nós não merecíamos isso.

Agora, o governador anuncia a implosão da Fonte Nova. Uma decisão que me cheira a uma espécie de “cala-boca”. Uma tentativa de desviar a atenção da grande tragédia para a grande obra que está por vir. Não acho que a decisão seja errada. Concordo tanto com a implosão, quanto com a decisão de que o novo estádio seja construído no mesmo local. Mas a rapidez do anúncio me causou estranheza.

Vai doer ver a Fonte Nova cair. Mas ela já estava ruindo aos poucos. Maltratada pelo descaso das autoridades (ir)responsáveis, pelos cartolas gananciosos e até por alguns torcedores vândalos como aqueles que invadiram e arrancaram seu gramado no último domingo.

Nossa Fonte envelheceu rápido. Estava suja, fétida, maltrapilha. E por mais que a gente a venere como nosso templo, não tem mais jeito. Chegou a hora dela. Tenho certeza que ela queria estar saudável e bonita para abrigar a melhor torcida do Brasil. A torcida que a deixava menos feia e um pouquinho mais colorida. A torcida que sempre amou estar ali e que até se ofende quando a chamam, com razão, de pior estádio do Brasil. Mas o descaso foi tanto que ela não agüentou mais. Não teve forças nem para segurar aqueles que lhe deram vida por mais de 50 anos. Naquele momento, ela também sofreu. Ela também morreu.

A Fonte Nova vai para o chão levando com ela um pouquinho de cada um de nós. De cada tricolor que tem uma historinha para contar como as tantas que já foram descritas aqui no blog. Mas vai ser melhor para ela. Para ela e para todos nós.

Naquele mesmo lugar vai nascer um novo estádio. Um novo tempo com novas conquistas, novas alegrias e novas histórias.

Já as 7 vidas que foram perdidas no dia 25 de novembro de 2007 não vão renascer. Infelizmente. E isso a gente não pode esquecer. Nem um segundo sequer. Nunca.