Hoje faz sete dias que aconteceu a tragédia da Fonte Nova. O blog ainda tem vivo em sua memória, esse trágico acidente que marcou para sempre a história desportiva do estado. Para prestar uma homenagem aos que faleceram naquele fatídico dia, publico o texto de Rose Bahiana, Bahia até no nome, que mandou o texto do Rio de Janeiro, um dia após a tragédia.
Esse país é grande. Mas ontem, particularmente, me senti morando a uma distância algo assim entre Austrália e o Brasil, ao tentar saber mais notícias sobre a queda de parte do estádio da Fonte Nova. Ninguém dava notícia. Nenhum jornal do Rio, nem as TVs. Eu ligava para Salvador, sabia que tinha meus por lá (com certeza, meus sobrinhos netos de 22 e 18 anos e meu irmão. Quem sabe também minha irmã e minhas sobrinhas). Minha família é toda de Salvador. E todo mundo, Bahia — com exceção de poucos, muito poucos.
Aquela cidade chama-se Esporte Clube Bahia (título, aliás, de uma das minhas primeiras reportagens na Tribuna da Bahia, onde comecei). Fui uma das primeiras a saber, porque acompanhava ao vivo o jogo entre o Bahia e o time do Vila Nova. Sabia que tudo tinha acontecido aos 35 minutos do segundo tempo, porque acompanhava pelo jornal A Tarde on line — o primeiro a dar uma pequena notícia. Era um jogo que levaria o Bahia apenas para a segunda divisão — é, tava na terceirona que nem eu. Mas quem torce pelo Bahia, não importa a divisão, é Bahia de coração — apesar dos dirigentes, todos invariavelmente canalhas e herança da maldita ditadura — e eu esperava mesmo era a festa de depois do jogo.
É que para os de minha geração o Bahia é muito mais do que um time e seu hino, a nossa marseilhesa (a ditadura chegou a tentar impedir que ele fosse tocado no trio elétrico nos carnavais do fim da década de 1960 e início de 1970). Não conseguiu a obediência: lá pelas tantas da noite, algum trio tocava e a gente quando ouvia os acordes iniciais (são inconfundíveis, principalmente para quem precisa de símbolos) dizia: chegou o levanta defunto. E o carnaval voltava a ser carnaval, apesar deles. Hoje, no Rio, não há um amigo meu que não conheça, e não cante comigo, o Hino do Bahia
Muita coisa mudou. A torcida do Bahia hoje lembra, em, certos momentos, uma horda de miseráveis desesperados. A maioria, pobres e pretos. E pobres a gente sabe como são tratados nesse País. A tragédia estava anunciada há tempos. O estádio foi condenado até pela PM. Apesar disso, venderam 60 mil ingressos. Estão querendo, agora, mudar o horário da tragédia, apenas para justificar que teria excesso de gente só depois do fim da partida — outros teriam entrado após o fim do jogo. Incrível: até alguns jornalistas da Bahia davam notícia errada para os canais de TV do Rio — ou não estou bem certa se era para Sídnei, a capital da Austrália, tal a demora de levá-las ao ar, a frieza das noticias e um toque de que isso aconteceu no fim do mundo — quem sabe na África. Sídnei apenas na distância, porque salvo alguma educação, mais informação e certo refinamento, o Rio pouco difere de Salvador. A Bahia é só mais pobre e menos informada: aqui, no Rio, o povo tem mania de ler jornal e as bancas estampam as primeiras páginas, enquanto em Salvador escondem os jornais — só lê quem pode comprar. É comum vermos dezenas de pessoas lendo e compartilhando, em volta da banca, alguma primeira página de jornal e discutindo as notícias entre si.
Notícias diziam também que o estádio, inaugurado na década de 1950, nunca passou por reforma. Outra mentira (pode-se mudar a história, mas não quando alguns protagonistas ainda estão vivos). Eu estava lá com meu irmão na reinauguração no fim da década de 1960, onde teve outros acidente, com dois mortos, porque alguém gritou que o estádio estava caindo. Hoje, de acordo com o relatório elaborado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Arquiteturas e Engenharia (Sinaenco), o estádio baiano é o pior dentre os 29 principais do País. Problemas nos banheiros, de ferrugem e oxidação foram apontados no estudo – divulgado no dia 1º de novembro – feito para avaliar as condições que os atuais estádios brasileiros teriam para sediar os jogos da Copa do Mundo de 2014. Estive lá uma vez e pensei: como aguentam isso? Por muito menos os flamenguistas destroem o Maracanã. Agora preservam, porque está lindo e bem cuidado.
Tudo aquilo acontecia em Salvador. E muita gente não sabia de nada. Outro mundo, outro país, outra cultura, outra gente — pobre e preta. Meu filho, que voltava do jogo do Flamengo, ao ver a primeira noticia no Sport TV, reagiu assim: “só isso? Você tá preocupada com isso?”. Era um buraco na arquibancada. Um buraco que tragou pessoas e matou 6 instantaneamente. Olhei para ele e descobri que também não falava a mesma língua — da elite branca. Ao ligar para Salvador (minha irmã ainda nem sabia de nada) vi que os “meus” de alguma forma estavam intactos. Mas, ao ver o primeiro vídeo, com alguns mortos ainda com plásticos improvisados, descobri que não falava, realmente, a língua de branco que predomina hoje. É que nas noites de Salvador sempre sopra uma brisa — ela vem do mar (o mar está em todos os lugares naquela cidade). O vento parecia fazer um carinho em um dos corpos, de bruços, levantava o plástico, brincalhão, e mostrava a camisa do Bahia. Foi quando descobri, e chorei, que tinha me enganado: nem eu nem os meus estavam intactos. E aquele meu irmão com a camisa do Bahia tinha recebido o último carinho de Yemanjá. Como será que sentiu nos seus últimos momentos?
Agora, o governador “encerra o caso” dizendo que vai implodir o estádio. Diz que a iniciativa privada vai pagar. Quem paga pra ver sou eu. Aqui, para o Pan, disseram o mesmo. Mas quem bancou tudo foi o governo federal — leia-se o Ministério do Esporte. E há indícios de que foi uma “farra” com o dinheiro meu, seu, nosso. Os governantes desse País não nos merecem. As flores que a Bamor colocou no estádio — azuis,vermelhas e brancas — foram de uma rara sensibilidade. Que chamem as torcidas e o povo para fiscalizar essas obras.
Rose Bahiana